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Conteinerização não é só Docker: O que realmente acontece em produção?

A conteinerização consolidou-se como um dos principais fundamentos da infraestrutura moderna. Descubra o que realmente acontece em produção além do Docker.

Rayan Victor De Souza Freitas
03 de fevereiro de 2026
6 min de leitura
Conteinerização não é só Docker: O que realmente acontece em produção?

A conteinerização consolidou-se como um dos principais fundamentos da infraestrutura moderna, permitindo portabilidade, isolamento e escalabilidade de aplicações em ambientes distribuídos. Apesar de amplamente associada ao Docker, a conteinerização é baseada em mecanismos do sistema operacional, como namespaces e control groups (cgroups), e depende de um ecossistema mais amplo que inclui runtimes, registries e orquestradores como Kubernetes.

1. Introdução

O crescimento exponencial da complexidade dos sistemas de software, impulsionado por arquiteturas de microsserviços, computação em nuvem e ambientes distribuídos, tornou inviável a gestão manual de aplicações e infraestrutura. Nesse cenário, a conteinerização emergiu como uma solução capaz de padronizar ambientes de execução, reduzir inconsistências entre desenvolvimento e produção e acelerar ciclos de entrega.

Embora o Docker tenha desempenhado papel central na popularização dessa abordagem, a percepção de que conteinerização se resume a essa ferramenta mascara a complexidade real envolvida em ambientes produtivos. Em produção, containers fazem parte de um ecossistema que envolve isolamento de recursos, políticas de segurança, observabilidade, automação e orquestração em larga escala. Este artigo discute o que efetivamente acontece além do Docker quando containers são executados em produção.

2. Fundamentos Técnicos da Conteinerização

2.1 Virtualização em nível de sistema operacional

Diferentemente da virtualização tradicional baseada em máquinas virtuais, a conteinerização opera no nível do sistema operacional. Containers compartilham o mesmo kernel do host, isolando processos e recursos por meio de mecanismos nativos do sistema, o que resulta em menor sobrecarga e maior eficiência no uso de recursos computacionais.

Comparação entre Máquinas Virtuais e Containers

Comparação: Máquinas Virtuais vs Containers

2.2 Namespaces

Namespaces são responsáveis por isolar aspectos fundamentais do sistema, como processos (PID), rede, sistema de arquivos e usuários. Cada container opera em seu próprio conjunto de namespaces, criando a percepção de um ambiente independente, mesmo compartilhando o mesmo kernel.

2.3 Control Groups (cgroups)

Os cgroups permitem limitar, priorizar e monitorar o consumo de recursos como CPU, memória e I/O por container. Em produção, esse mecanismo é essencial para evitar que uma aplicação consuma recursos de forma descontrolada e comprometa a estabilidade do ambiente.

2.4 Sistema de arquivos em camadas

Imagens de containers são compostas por múltiplas camadas imutáveis. Essa abordagem reduz o uso de armazenamento, acelera a distribuição de imagens e facilita o versionamento, sendo um elemento-chave para pipelines de entrega contínua.

3. Docker e o Ecossistema de Runtimes

O Docker simplificou a criação, empacotamento e distribuição de containers, fornecendo uma interface padronizada para desenvolvedores e equipes de operações. Contudo, em ambientes modernos, o Docker atua como uma camada de abstração sobre componentes como containerd e runc, que são responsáveis pela execução efetiva dos containers.

Essa separação arquitetural permitiu a adoção de runtimes padronizados e a integração com orquestradores, tornando o ecossistema mais modular e flexível para uso em produção.

4. Orquestração de Containers em Produção

4.1 Kubernetes como padrão de orquestração

À medida que o número de contêineres cresce, surge a necessidade de orquestrar sua execução. Kubernetes consolidou-se como o principal orquestrador, oferecendo mecanismos de escalabilidade automática, auto-recuperação, balanceamento de carga e gerenciamento declarativo do estado desejado.

Arquitetura do Kubernetes

Arquitetura básica de um cluster Kubernetes

4.2 Abstrações operacionais

Em Kubernetes, containers são executados dentro de pods, que representam a menor unidade de implantação. Recursos como Deployments, StatefulSets e Services permitem controlar atualizações, disponibilidade e comunicação entre aplicações, adicionando uma camada essencial de resiliência na produção.

5. Fluxos Reais de Conteinerização em Produção

Em ambientes produtivos, a execução de containers segue fluxos bem definidos:

  1. Desenvolvimento e versionamento do código-fonte;
  2. Construção da imagem do container em pipelines de CI;
  3. Armazenamento da imagem em registries privados ou públicos;
  4. Implantação automatizada via orquestrador;
  5. Monitoramento contínuo e escalabilidade automática.

6. Desafios Operacionais e Erros Comuns

Fluxo de Containers em Produção

Fluxo típico de CI/CD com Containers

Apesar dos benefícios, a adoção de containers em produção apresenta desafios significativos. Entre os erros mais comuns destacam-se:

  • Imagens excessivamente grandes e mal otimizadas;
  • Containers executando com privilégios elevados;
  • Ausência de limites de recursos;
  • Falta de observabilidade e métricas confiáveis;
  • Dependência excessiva de configurações manuais.

Esses problemas comprometem a segurança, a estabilidade e a previsibilidade do ambiente.

7. Boas Práticas para Ambientes Conteinerizados

Organizações maduras adotam práticas consolidadas para mitigar riscos, incluindo:

  • Uso de imagens mínimas e builds multi-stage;
  • Execução de containers como usuários não privilegiados;
  • Definição explícita de limites de CPU e memória;
  • Integração com sistemas de monitoramento e logs estruturados;
  • Automação de deploys e rollback por meio de orquestradores.

Essas práticas alinham a conteinerização aos princípios de engenharia de confiabilidade e operações modernas.

8. Conclusão

A conteinerização vai muito além do uso do Docker como ferramenta de empacotamento. Em produção, ela envolve mecanismos profundos do sistema operacional, runtimes especializados e plataformas de orquestração capazes de gerenciar ambientes altamente dinâmicos. Compreender essa complexidade é essencial para evitar armadilhas comuns e extrair os reais benefícios da tecnologia. Ao adotar boas práticas e uma visão sistêmica, organizações conseguem alcançar maior confiabilidade, escalabilidade e previsibilidade em seus ambientes de produção.

Referências

  • BERNSTEIN, D. Containers and cloud: From LXC to Docker to Kubernetes. Communications of the ACM, v. 57, n. 3, p. 58–66, 2014.
  • Pahl, C. Containerization and the PaaS cloud. IEEE Cloud Computing, v. 2, n. 3, p. 24–31, 2015.
  • RODRIGUEZ, M. A.; BUYYA, R. Container-based cluster orchestration systems: A taxonomy and future directions. arXiv preprint, 2018. Disponível em: https://arxiv.org/abs/1807.06193
  • MERKEL, D. Docker: Lightweight Linux containers for consistent development and deployment. Linux Journal, n. 239, 2014.
  • KUBERNETES. Kubernetes documentation. Disponível em: https://kubernetes.io

Tags:

#Conteinerização#Docker#Kubernetes#Infraestrutura Moderna#Orquestração#Confiabilidade
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Rayan Victor De Souza Freitas

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